quinta-feira, 11 de março de 2010

A beleza da feiura de Jesus


Lucas conta que o alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, estava lendo a respeito de Jesus no carro que o levava de volta à Etiópia. A esta altura, a carruagem se aproximava da faixa de Gaza. A passagem do livro que o homem lia estava em torno daquilo que hoje chamamos de capítulo 53 do profeta Isaías. Entre outras informações, o etíope leu: “Ele [Jesus] não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para que o desejássemos.” (Is 53.2.) A Nova Tradução na Linguagem de Hoje é mais incisiva: “Ele não era bonito nem simpático nem tinha nenhuma beleza”. Em outras palavras, o profeta estava chamando a atenção do leitor para a feiúra de Jesus. Sem dúvida, ele também tinha ficado impressionado com esse pormenor. A explicação da aparente feiúra de Jesus está no capítulo anterior, três versículos antes: “Sua aparência estava tão desfigurada, que ele se tornou irreconhecível como homem; não parecia um ser humano.” (Is 52.14.) O profeta não se referia ao Jesus da transfiguração, nem ao do Sermão do Monte, mas ao Jesus desfigurado do Getsêmani, ao Jesus da Sexta-Feira da Paixão. Ele estava verdadeiramente feio: cabelo despenteado e ensanguentado, por causa da coroa de espinhos; rosto cheio de hematomas e manchas roxas, por causa da pancadaria; costas sem pele nem carne, por causa dos açoites; corpo repelente, por causa da rara mistura do suor com sangue, poeira e cuspe – o cuspe dos soldados; pernas trôpegas, por causa de uma noite sem dormir; e semblante que não transmitia nenhum sinal de alegria, por causa da tristeza mortal que o acometeu logo ao chegar ao Getsêmani, do beijo de Judas, do abandono dos discípulos, da tríplice negação de Pedro, do depoimento falso das testemunhas, da covardia de Pilatos e da ingratidão do povo que preferiu soltar Barrabás. Todavia, é nessa impressionante feiúra de Jesus na Sexta- Feira da Paixão que nós vemos a sua maior beleza. O que mantém os crentes ligados a Jesus já por vinte séculos é a beleza de seu sacrifício expiatório. Nós não negamos a sua feiúra, mas enxergamos toda a beleza que está por trás dela. Repetimos ao redor do mundo que ele desceu ao Hades e subiu aos céus. Escolhemos a cruz como o mais precioso símbolo do Cristianismo. Para chamar a atenção dos nossos filhos para a salvação operada no Gólgota e confirmada no jardim da casa de José de Arimatéia, fabricamos a frase aparentemente mais contraditória da história: “A beleza da feiúra de Jesus!” Precisamos orar para enxergar toda a beleza de Jesus. Ela é tão misteriosa, tão rica, tão vasta, tão avassaladora, tão sublime, que a nossa capacidade de enxergá-la é limitada. Precisamos de ajuda para enxergar não só a beleza de seu sacrifício vicário, mas também a beleza de seu nascimento virginal (Jo 1.14), de sua ressurreição inesperada (Lc 24.5-6), de sua ascensão majestosa (Hb 1.3), de sua agenda atual (1Co 15.24), de sua volta gloriosa (Mt 24.30) e de sua plenitude universal, inquestionável e inesgotável sobre eras que tombam sobre eras numa sucessão contínua (Fp 2.9-11)!

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